Bala por chocolate

Marcondes Araújo

Lembrou-se que no quartinho dos fundos, onde eram jogados os trastes e as bugigangas da família, havia visto um pequeno saco plástico contendo alguns cartuchos de revólver calibre 38. Estavam escondidos no alto de uma prateleira de ferro, detrás de umas panelas de pressão inutilizadas. Não sabia quem o havia colocado ali, se sua mãe ou o seu pai. Descobrira-o por acaso, havia cerca de um ano, ao esconder no mesmo lugar umas moedas que o pai deixara cair embaixo da cama, quando trocava de calça. Por todo aquele tempo, os cartuchos não lhe haviam despertado nenhum interesse, pois não via qualquer possibilidade de usá-los em suas brincadeiras. Que graça teria em brincar com cartuchos de revólver calibre 38? Que graça teria, hein?

Sabia que o pai possuía um revólver 38, pois já o tinha visto escondido em cima do guarda-roupa. Era um revólver branco, grande e pesado, que ele segurou com as duas mãos e ainda tentou apertar o gatilho, mas não conseguiu. Colocou a arma de volta ao lugar, com um estremecimento de carinho e de medo.

Afora este episódio, só soubera de que havia uma arma em casa durante uma das frequentes brigas entre os pais. No calor de uma violenta discussão, em que procurara o banheiro para se esconder, ouviu a mãe gritar: Você é que nem esta arma inútil que esconde em cima do guarda-roupa: não tem bala na agulha! Não entendeu o que a mãe quis dizer com isto, mas achou que houvera sido uma agressão muito forte, pois imediatamente o pai se calou. A mãe também se calou. E minutos depois o pai saiu, para só retornar bem tarde da noite, completamente bêbado.

Lembrou-se dos cartuchos quando foi procurado por Adão, um menino de sua idade que havia conhecido na escola, e com o qual iniciava uma camaradagem. Adão queria comprar chocolates, mas não tinha dinheiro. Ele disse que também não tinha, e que há muito tempo os pais não lhe davam nenhum trocado para comprar sequer um pirulito. Passaram um bom tempo calados, ele xingando os pais em pensamento, Adão olhando para o céu, as mãos na cintura, os olhos semicerrados. Só se a gente conseguisse alguma coisa pra vender, disse Adão. Ele contraiu os lábios e ficou olhando para o amigo, esperando que encontrasse a solução. O diabo é que lá em casa não tem nada que sirva pra vender. Ninguém vai querer comprar roupa velha, sapato velho, cadeira velha…

– Lá em casa tem umas balas – ele disse.

Adão olhou-o, sem entender.

– Umas balas de revólver.

– Bala de revólver? Revólver de verdade?

Ele assentiu com a cabeça:

– O trinta e oito de meu pai.

Adão deu um soco no ar:

– Bala tem quem compre!

Adão ficou esperando na praça, brincando na escorregadeira. Ele foi em casa, ainda sem saber exatamente o que estava fazendo. Rumou direto para o quartinho dos fundos, colocou a cadeira próxima à prateleira, subiu, vasculhou por trás de uma panela de pressão. Ainda estava lá. Pegou o saquinho, sentiu-o pesado. Desceu da cadeira, ouvindo os cartuchos tilintarem. Escondeu-o por dentro da camisa e saiu pelo oitão, sem ser visto por ninguém. Quando chegou à praça, sentou ao lado de Adão. Abriu o saquinho e contaram oito cartuchos. Adão ficou encantado:

– É grande. Isto mata um elefante.

– É isto tudo que entra na pessoa? – ele perguntou.

– Não, seu idiota. Só esta parte de chumbo. Esta parte amarela fica presa no revólver, depois que a bala sai. Depois eles jogam fora. É a casca da bala.

Ele admirou-se com o conhecimento de Adão. E ficou olhando um bom tempo para os cartuchos. Imaginava como aquilo podia matar uma pessoa.

– E agora? – perguntou.

– Agora nós vamos vendê-las no mercado. Aqueles homens que ficam bebendo lá gostam de comprar balas. Eles só andam armados.

– E por quanto a gente vai vender isto?

– Sei lá. Pelo preço que eles derem. A gente pede 2 reais por cada uma. Se vender as oito, dá pra comprar um bocado de chocolate.

Ao se aproximarem do mercado, ele viu o pai bebendo em um dos bares. Estava sozinho em um canto, ao lado de um grupo de homens que jogavam dominó batendo com força as peças sobre a mesa. O pai parecia triste, aparentava estar alheio ao que acontecia à sua volta. Ele estancou na esquina, ficou atrás do poste:

– Eu não posso ir…

– Deixe que eu vou.

Ele viu Adão aproximar-se dos homens, apresentar as balas. Viu os homens suspenderem a partida, verificarem os cartuchos, darem risada, e voltarem a bater as peças sobre a mesa. Viu o pai chamar Adão, meter a mão no bolso, dar um dinheiro para ele, depois pegar o saquinho com os cartuchos e enfiá-lo no bolso da calça. Adão voltou sorrindo.

– Vendi tudo para aquele homem que está bebendo sozinho. Pagou 1 real por cada bala. Dá pra comprar um bocado de chocolate.

Ele esqueceu o pai, e saiu com Adão para o supermercado. Compraram oito chocolates, cada um ficou com quatro. Foram comer as barras na pracinha que fica atrás da Igreja Matriz. Havia muito tempo ele não comia chocolates. Voltou para casa ainda sentindo o sabor do chocolate. Jantou, e continuou sentindo o sabor do chocolate. O pai não veio para o jantar. Ouviu a mãe dizer: Deve estar enchendo o rabo de cachaça. Aquele inútil. Foi dormir ainda sentindo o sabor do chocolate. De madrugada acordou com o barulho de um tiro, que veio do quintal. Ouviu a mãe levantar-se sobressaltada, e correr para a cozinha. Ouviu-a abrir a porta que dava para o quintal. Ela deu um grito agudo, esganiçado. Depois outro, e mais outro, e mais outro. Quatro gritos espaçados. Como se procurasse fôlego, a cada vez, para dar o próximo grito. Ele correu para o quintal e viu a mãe ajoelhada diante do pai, que estava caído e sangrava muito por um buraco no lado direito da cabeça. Tinha os olhos abertos, e ainda segurava o revólver. A mãe soluçava e murmurava: Meu Deus, esse idiota encontrou as balas.

Sou jornalista, 49 anos, baiano de Senhor do Bonfim, moro em Feira de Santana há 21 anos, onde trabalho como editor de texto na TV Subaé, afiliada da Rede Globo. Tenho três livros de contos na gaveta: “Peter Pan às avessas – Histórias crueis da infância”, “A proibição da morte”, e “A embriaguês do jumento e outros contos hemorrágicos”, do qual faz parte “Piolhos-de-cobra”. Tive contos publicados no jornal Rascunho, do Paraná, revista Iararana, de Salvador, e Tribuna Cultural, de Feira de Santana.

Leia a seguir: “Barão do Rio Branco, 1016“.

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3 comentários em “Bala por chocolate”

  1. Beleza! Marcondes retrata com fidelidade, a dura realidade da vida, quando vivida sem esperança, sem rumo. Parabéns! Sua coerência é admirável e rara. Que venha logo a publicação de seus livros para deleite nosso. Parabéns! Grande Marcondes Araújo, ou, simplesmente “Conde”.

  2. Fiquei pensando em como deve ter ficado este menino. É isso, Conde, são meninos e meninas assim que encontramos aos montes pelas esquinas das cidades (Os Capitães de Areia” do Amado Jorge) e que também um professor tem em sala de aula. Como curar, ou ao menos suavizar dores, traumas gerados, proporcionados por déficits tão contrafeitos, inescrupulosos através dos quais o professor também emana? E não é coisa só de país de terceiro mundo não. O mundo super/ultra/mega moderno, onde ninguém tem tempo pra nada, onde se vive a era do descartável e onde estar-se mais para personagens de “Alice in Wonderland” aonde o mais equilibrado é o Coelho Branco, aquele cujo relógio está dois dias atrasado.“É tarde! É tarde! É tarde até que arde! Ai, ai, meu Deus! Alô, adeus! É tarde, é tarde, é tarde!”. Seu conto me inquieta enquanto ser humano, e mais especificamente, enquanto professora. Um dos meus vários traumas, é que, enquanto espero a aposentadoria ser publicada, não consegui ser “aquela” professora da música “Estampas de Eucalol” ou “Uma Professora Muito Maluquinha” do Ziraldo e ainda Rose Morgan (Barbra Streisand) uma professora de literatura do filme “O Espelho tem duas Faces”. E “Abelardo” de “Em nome de Deus”? Como eu queria dar aulas como ele, Conde.

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