O som da nuvem

Jocevaldo Rodrigues

Era noite quase alta quando Alimah chegou ao apartamento de Murilo, seu amigo íntimo que não via havia mais de cinco anos. Subiu até o sétimo andar e tocou a campainha, segundos depois a porta rangeu e lá estava seu amigo, com os mesmos olhos, boca e nariz de antes. Mas o aroma e o abraço eram diferentes: leves e envolventes.

Quando Alimah adentrou o apartamento, sentiu como se estivesse entrando em um jardim onde ela mesma houvesse plantado a flor do seu gosto – talvez pelos anos de convívio e intimidade. Sem lhe dizer uma palavra, Murilo apontou-lhe a sacada, onde uma mesa havia sido preparada com esmero. Quase que automaticamente ela caminhou até lá ainda sem dizer uma palavra. Não estava acostumada a fazer uma visita sem ao menos um cumprimento inicial, mas assim mesmo resolveu fazer o que lhe foi indicado. Ao chegar à sacada, percebeu que estava rodeada por um silêncio que não lhe era familiar. Estava imersa em um semi-silêncio povoado de emoções que não tinham donos; eram seus, de Murilo e de toda gente lá fora. Sentou-se.

Olhou para o céu enquanto esperava, e se deu conta de como era bela e clara a lua de outono. Deixou-se envolver mais uma vez por esse algo que não sabia dizer o que era e arrepiou-se. Sentiu-se como uma taça prestes a estilhaçar quando exposta a uma nota alta de uma soprano. Vibrou até seu corpo responder. Ouviu com ouvidos globalizados, conseguia abranger todas as vibrações que lhe chegavam e mais, conseguia sentir-se vibrar e pulsar, como nota em uma pauta ancestral sendo executada. Seu corpo é água e a lua influenciava-o, da mesma forma como faz com as marés. Nas águas do seu corpo estava o som primordial do existir e essa era a primeira vez que parava para ouvi-lo e se surpreendeu ao descobrir que não havia silêncio: havia sim um colóquio entre todas as coisas, reflexo de uma estrutura cósmica da qual também fazia parte. Ouviu então os passos de seu amigo retornando, mas não como ruídos separados e sim como um pulsar de si mesma, de tudo o que a cercava.

Murilo voltou e colocou água para ferver no braseiro sobre a mesa e sentou-se em uma almofada, em frente à sua amiga, separados pela mesa. Ao perceber o estado de sua companheira (que a essa altura ainda estava arrepiada e com olhos lânguidos, respirando profundamente) ele se manteve calado e limitou-se a continuar o preparo do chá ainda sem dizer uma palavra. Manipulou os utensílios do chá com graça, e enquanto fazia isso, Alimah olhava para a lua e lembrava-se dos momentos vividos antes de entrar naquele apartamento. Era como se fosse outra vida, cheia de palavras pesadas e vazias e agora sentia renascer seus sentidos. Os sons dos utensílios tilintando eram como notas postas em uma harmonia seminal; a batida do hishaku ou o som do chasen raspando na tigela de chá era como um mantra… O mantra do nada. O aroma do chá sendo colocado na tigela fez com que ela se enchesse de vida, revigorada e desperta. Só então olhou para os olhos de Murilo e ouviu soar algo que não estava fora, mas dentro de si: sua coluna arrepiou-se e sentiu-se queimar.

Recebeu a tigela com um cuidado religioso e levou-a a boca. Ao primeiro gole, inundou-se de um calor ameno, sentiu o chá correr por seu corpo e pela primeira vez em muitos anos sentiu seu corpo por inteiro. Tornou a dissonância das coisas consonantes. Foi como se seu cérebro tivesse sido afinado, como um instrumento musical, para soar de acordo com a música que agora ouvia. Descobriu que escutar as coisas era escutar a si mesma. Olhou novamente para o céu e sentiu uma leve brisa cantar em seu rosto; fechou os olhos e se deixou levar pelo vento. Ao reabrir os olhos, arrepiou-se novamente e como se intuitivamente soubesse o que fazer, passou a tigela para seu anfitrião, que bebeu com reverência velada e silenciosa. Pousou a tigela na mesa, levantou os olhos para sua amiga e tomou as mãos dela entre as dele. Foi para Alimah como se uma corrente elétrica percorresse seu corpo, deixando-a ainda mais desperta; reagiu com um leve susto, mas logo relaxou e entregou suas mãos.

Houve então um trovejar e ela voltou a olhar para o céu. Percebeu que uma nuvem se aproximava pelo lado direito da sacada. Era leve e opaca e parecia ter uma iluminação própria, devido ao forte brilho da lua outonal e devia estar ali muito antes de Alimah perceber. Fitou a nuvem e tentou ouvir seu som. Murilo aproximou-se, como se soubesse o que ela estava a pensar; inclinou-se em direção ao ouvido dela e, pela primeira vez em toda noite, palavras se fizeram ouvir:

– Quando o silêncio de uma nuvem nos fala, nós calamos. E essa nuvem, desde o momento em que você entrou, discursa sobre a nudez da vida e a fluidez do existir.

Sou estudante de Filosofia, pesquisador independente na área da Antropologia e Filosofias orientais. Alimento e me alimento de utopias, eterno aspirante a músico; baterista e adepto da concepção sistêmica da vida.

Leia a seguir: Crônica de pouco amor.

2 comentários em “O som da nuvem”

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