Homem em guerra

Rafael Rodrigues

a Robert Fisk

Acabo de passar pelos restos do que deveria ter sido um garoto. Há poucas horas houve um ataque aéreo que atingiu o centro da cidade e ainda posso ver a perplexidade nos rostos das pessoas. Perplexidade, destruição e sangue. Muito sangue.

Ninguém esperava algo tão violento. Guerras são violentas, mas um ataque dessas proporções é quase surreal. Do lado inimigo não houve mortes, o míssil que saiu daqui atingiu uma localidade desértica, o estrago foi mínimo, culpa da tecnologia ultrapassada deste país. É isso que torna o revide ainda mais abominável.

Não foi necessário alguém me avisar do ataque. Eu já o estava aguardando. Assim que ouvi as explosões ao longe, calcei os sapatos e saí para colher dados para a matéria de amanhã.

No caminho para o centro pude ver o horror no rosto das poucas pessoas que se atreveram a sair de casa depois do ocorrido. A maioria se manteve dentro de casa, com medo de um novo ataque. Suas casas ainda são redutos ilusórios de segurança.

Cheguei aqui há dois meses. Vim com a informação de que havia a possibilidade de um conflito ser iniciado a qualquer momento. A previsão se cumpriu e uma nova guerra foi iniciada poucos dias depois de eu chegar.

Nada com que eu já não esteja acostumado. Comecei no jornalismo cobrindo a guerra do tráfico no Rio e, depois de escrever várias matérias citando nomes de policiais e políticos envolvidos com traficantes, meus patrões acharam melhor me tirar do país e me enviar para o velho continente, onde eu viveria como um fantasma, trocando periodicamente de cidade e/ou país. Nunca se sabe até onde vai a rede de contatos de um mega traficante ou de um político sedento por vingança.

Apesar de não poder me estabelecer por um bom tempo em lugar algum, a vida de correspondente internacional peregrino não é tão ruim. Conheço várias pessoas interessantes todos os dias e tenho acesso a certos luxos que o Brasil jamais proporcionará a alguém. Visitei museus famosos, lugares históricos e sagrados, livrarias e teatros badalados, essas coisas. A Europa é o continente que mais se aproxima de ser civilizado. Só não o é totalmente porque miséria e pessoas pobres de espírito existem em qualquer lugar.

O lado ruim é que fico distante de minha filha. Já não nos víamos muito quando eu morava no Brasil, é verdade – o trabalho sempre ocupou a maior parte do meu tempo –, mas saber-se perto ao menos é um consolo. Agora, com um oceano entre nós, preciso me controlar para não chorar toda vez que penso nela.

Sentei aqui para tomar um café e tentar colher alguns depoimentos para colocar na matéria. Posso dizer que o dono do restaurante é um “velho” conhecido e ele sabia que eu viria. Não há mais que sete pessoas aqui, incluindo ele, eu e um garçom que vem a ser seu filho mais velho. Pergunto aos quatro civis absortos que estão sentados numa mesa próxima ao balcão onde eles estavam no momento das explosões, e assim inicio minhas anotações.

Escrever as matérias não me custa mais do que duas ou três horas. A depender da gravidade dos ataques posso terminar o trabalho em pouco mais de uma hora. Por um lado isso é bom, porque não preciso me preocupar com o deadline, mas por outro é ruim, porque fico horas sem ter o que fazer. Das duas, uma: ou perambulo pela cidade em busca de alguma pouco provável informação adicional relevante, ou fico no quarto do hotel na expectativa de um novo ataque. Tento ler algo ou ver as coberturas da CNN e BBC, mas não consigo manter a atenção no livro nem na tela. É quando começo a contar as horas para poder ver minha filha na webcam.

A mãe dela não gosta. Diz que cada dia pareço estar pior. Digo a ela que melhor eu não poderia estar, em meio a este carnaval promovido por açougueiros. Ela me chama de grosso e grita o nome de Clara, para que ela “venha ver seu pai”.

Eis a segunda alegria da minha vida: a Clara. Às vezes esse mundo de merda produz coisas belas. Saber que uma delas é um pedaço de mim me deixa orgulhoso e emocionado. A outra alegria que tenho é a minha carreira. Mas dela já estou cansado e seriamente pensando em abandonar. Quem sabe mudar de nome e escrever sobre futebol?

A ideia de cobrir esta guerra não foi minha. Na verdade, ninguém precisava cobrir. As agências internacionais de notícias existem para isso. Eles que façam o trabalho sujo, corram risco de morte e ganhem Pulitzers. Mas, depois de alguns artigos que escrevi sobre a ocupação norte-americana no Iraque e no Afeganistão terem sido muito elogiados por leitores e até mesmo colegas de trabalho, meu editor sugeriu que eu pensasse na possibilidade de escrever um livro sobre este conflito que se arrasta por décadas, alternando períodos de hibernação com períodos de violência impressionante. “Livros sobre guerra estão em alta, rapaz. Se você escreve um, vira best-seller, com certeza”, foi o que ele disse.

Uma ideia oportunista, claro, mas eu teria a chance de fazer algo mais excitante e ainda maior que aquelas matérias sobre o tráfico. Talvez isso fizesse até com que eu pudesse novamente voltar a morar no Brasil, perto de minha filha e de meus amigos – se é que ainda tenho algum.

Fui me olhar no espelho e quase não me reconheci. Minha barba está por fazer há semanas e meu semblante denuncia uma idade que ainda não completei – faltam uns dez anos para chegar lá.

Sentei-me na cama e cheguei à conclusão de que há anos deixei de ser eu mesmo. Esta vida não é minha, aqui não é o meu lugar. Antes que eu tenha um surto psicótico resolvo pegar meus cigarros e andar um pouco.
Ao fechar a porta do quarto ouço mais uma explosão. O trabalho me chama mais uma vez. Mas, por favor, agora, não.

Agora, não.

* Conto escrito ao som de “Cedars of Lebanon”, do U2.

Escritor, resenhista e editor. Foi editor-assistente do Digestivo Cultural, um dos principais sites de cultura do Brasil. Colaborou com diversos veículos de comunicação, entre eles as revistas Brasileiros, Conhecimento Prático Literatura e Conhecimento Prático Filosofia, do jornal Rascunho e do Suplemento Literário de Minas Gerais. Atualmente mantém o blog Entretantos dentro do portal da revista Bravo!. Mora em Feira de Santana. O conto “Homem em guerra” é uma das histórias do livro “O escritor premiado e outros contos” (Multifoco, 2011).

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