Crônica de pouco amor

Carolina Vianna

Escritas ao sabor de Guinness
numa noite onde esquecer
um grande amor não era um desejo
mas uma necessidade

Daí eu revelei o segredo. Depois de anos de suspense. Ela não deu a mínima. Tratou como se estivéssemos comentando cena de novela. E eu lá, estilhaçada, morrendo de vontade de gritar “Porra, você não vê que isso destruiu a minha vida?”.

Mas não gritei. Não falei mais nada. O que mais havia a ser dito? Ela voltou ao seu tricô. Eu, aos livros. Como se nada tivesse acontecido. Mas tinha. Eu estava quebrada. Mais infeliz e solitária do que jamais fora. Por dentro. E sorria. Por fora.

Foi ali que a raiva nasceu. Era só uma sensação incômoda no começo. Não gostava quando nossos olhares encontravam-se. Eu fugia. Chamava-me de furtiva. Levei anos para entender o sentido da palavra. Mas me sentia culpada.

As discussões aumentaram ao ponto de se tornarem insuportáveis. O respeito não existia há tempo. Só faltava agressão física, eu pensava. Se ela me bater, eu revido. Planejava em segredo.

Nesse tempo ainda tinha uma faísca. Um desejo, eu digo. Bem pequeno, mas tinha. Eu sonhava – secretamente – com a reconciliação. Ainda era só raiva contida. O ódio veio bem depois. E o reconhecimento dele, mais tarde.

Só notei quando me peguei imaginando sua morte. Mais de uma vez. Veneno. Desastre aéreo. Mal súbito. Doenças venéreas. Aneurisma. Enfarte. Asfixia. Carbonização. Engasgo com coxinha de posto de gasolina.

Os finais trágicos eram os mais divertidos. Quanto ao funeral, nenhuma variação. Vazio. Eu e mais ninguém. Nenhuma lágrima. Nem flores. Eu e o caixão.

Depois disso, sublimei. Pouco contato. Conversas amenas. Total indiferença. Fui me afastando sem que notassem. Ela reclamava. Pra fazer gênero, eu acho.

Consegui um emprego fora. Morando em outro país você pode fazer qualquer coisa, mas – invariavelmente – vira motivo de orgulho. O pessoal entra numas de achar que tudo que tem fora é melhor. Eu só reforcei. Nessa época, não me sentia nem culpada. Era importante.

A volta foi complicada. Ela queria que eu fosse pra casa. Eu preferia morar com o diabo e ser escrava dele. Fiquei em casa de amigos por uns tempos, até me arranjar. Ela sempre dava um jeito de jogar isso na minha cara. “Prefere os amigos à própria mãe!”. Eu ficava calada.

Sempre fui assim. Calada. Soturna. Introspectiva. Personalidade, né? Os amigos mais íntimos diziam “reservada”. Achava chique.

Um dia eu gritei. Finalmente, gritei:

– Você deveria ter me PROTEGIDO! Deveria ter ME escolhido! EU era um pedaço de você! Ele, não.

Ainda enxugando as lágrimas, acendi as velas e depositei o maço de flores no cimento frio.

Voltei pra casa às pressas, precisava fazer o jantar.

Sou bacharel em Artes Cênicas pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Publico textos nos sites Recanto das Letras, Portal Literal, colaboro com crônicas semanais para o site Mulheres no Poder e mantenho o blog Escolhas. Apaixonada pelas artes, sou também fotógrafa e diretora de teatro.

Leia a seguir: A caixa de vinhos.

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