Atlas, atrás

Marcos Visnadi

do alto a terra é tão extensa
que assim só conhecia o mar
(Júlia de Carvalho Hansen)

A maior alegria / de uma vida. Está tão feliz que quase faz pum. E sai pelo bairro da Lapa de casas baixas sobrados o policial federal diz “é só isso” achando o velho um pateta e aí sim ele sai, pelo bairro da Lapa, andando sem direção vagamente para a estação de trem. Partir, partir. Entra num restaurante-boteco de olhos marejados. Tudo agora são caminhos. Pra começar, um ovo frito. Se alguém visse também ia achar esquisito – e até perigoso – aquele sorriso que estica a boca murcha. Parece louco manso sai pra lá! Ele sairia mesmo, se alguém mandasse. “Eu fui feito pra sair”, sorri pra si.

Chegando em casa, duas baldeações de trem depois, se satisfaz porque qualquer cidadão de bem com pouco menos de cem reais poderá / / / . Nunca tinha tirado passaporte. “Agora sim” sorri para si enquanto traça no atlas caminhos compridos compridos como daqui até a China. Seria marinheiro. Joseph Conrad escreveu o livro “A linha de sombra”, em que conta a história de um jovem marinheiro que entra na idade adulta. A tal “linha de sombra” é o fim da juventude em que tudo é possível e o começo de uma fase da vida em que quase nada é. Continua riscando os mares. Ele passou a vida foi confeccionando flores de plástico, tem a casa cheia delas. E, a bem dizer, não tem um tostão no bolso sequer pra comprar o remédio pra pressão. Com cuidado e euforia, guarda o passaporte dentro do atlas antigo, grande, pesado, do tamanho do mundo. “Sim”, sim, sim.

Olha pela janela emperrada do apartamentozinho de vila operária, na frente uma estrada e caminhões, carros, ônibus. Na frente um rio cinza e, na frente, uma praça de grama cinza. E na frente outras casas e na frente delas prédios e na frente deles. No fundo do horizonte que ele não vê deve haver um porto. Em algum lugar no meio deve haver um aeroporto. Aperta os olhos e aos poucos consegue perceber o contorno das partidas de um mundo lindo e lindo como um espelho, ele se vê nos navios. Cercado de mar. E se olha, basta olhar, faz sol e tais azuis de brilho, brilho, a linha dele é de luz. Vamos, “vamos”, sorri.

Nasci em 1984 no interior de São Paulo. Depois da adolescência, vivi alguns anos na capital do estado e agora estou em Buenos Aires. Este conto faz parte do primeiro livro que escrevi, finalizado recentemente e chamado Atlas, e leva o mesmo título do meu blogue: http://atlasatras.blogspot.com.

Leia a seguir: Homem em guerra.

Uma consideração sobre “Atlas, atrás”

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