Pintando o sete

Nelson de Oliveira

Conheci Simone numa visita ao pavilhão japonês. Foi amor à primeira vista. Serpente. Seus olhos gulosos e verdejantes me hipnotizaram.

Renata eu conheci no dia seguinte, no quiosque de aluguel de bicicletas. Ah, também foi amor à primeira vista. Vampira. Sua boca quântica e trilíngue me deixou paralisado.

Tereza eu conheci um dia depois, numa visita ao planetário. Não podia ser diferente: também foi amor à primeira vista. Anjo renascentista. Seu nariz crepuscular e sádico me encantou.

Cláudia, Bruna, Aline e Vitória eu conheci logo depois, uma de cada vez. Paixão avassaladora. Amor infinito e metonímico. Os pés impressionistas de Cláudia, libertina, no Museu de Arte Contemporânea. As pernas caudalosas de Bruna, anfíbia, na praça da Paz. Os seios apimentados de Aline, assombração, na Oca. E o cabelo allegro-ma-non-troppo de Vitória, pleonasmo, no jardim de Esculturas. Todas essas vorazes insinuações do corpo me deixaram de quatro. Algemado.

Foram sete mulheres em sete dias. Sete maravilhas nas idas e vindas assanhadas do parque Ibirapuera.

Amor nunca é demais.

Difícil está sendo evitar que se encontrem. Que descubram que eu não sou de uma, mas de sete. Se isso acontecer, o mundo acaba. Perco os dentes e a vontade de viver.

A sorte é que a semana é longa e o parque é grande.

Simone é meu origami das segundas artesanais, sempre nas proximidades do pavilhão japonês. Nossos encontros são cheios de dobras endiabradas e delicadas situações de papel. Ora suas mãos me transformam, ora sãos as minhas que moldam sua superfície. Ah, Simone vale o vôo de mil tsurus animados.

Renata é minha bicicletada das terças ciclotímicas, sempre nas curvas da ciclovia. Trintrim. Olha a frente! Pedalamos e freamos, freamos e pedalamos, com a paciência que os obstáculos exigem. São crianças, cachorros e gorduchos rebolantes, que nossa libido sobre rodas quase atropela. Renata é rápida, forte. Eu sou lento, mas tenho mais sorte.

Tereza é minha supernova das quartas explosivas, sempre no escurinho do planetário. Calor e queimaduras. Meu prazer maior é não ceder tão facilmente. É resistir o máximo possível ao irresistível. À sua força gravitacional estelar, constante. Cinco segundos é o meu recorde. Tereza é o sol, eu sou Ícaro. Como acha que nossos encontros terminam?

Cláudia é minha abstração das quintas expressionistas, sempre no Museu de Arte Contemporânea. Na vanguarda ou na retaguarda, somos um curioso amálgama de linhas e cores, texturas e volumes. Pena que nossa arte não possa ser exposta ao público. A crítica aplaudiria, o povo uivaria. Ah, com Cláudia tudo sempre vira uma obra-prima.

Bruna é minha guerrilha das sextas armadas, sempre na praça da Paz. Onde ela, a paz, é a única coisa que nossos sentidos não encontram. Não. Por favor, não vão logo pensando em violência. Pensem em violetas e hortênsias, beijos hippies e abraços de jiu-jitsu. Eu apanho muito. Bruna é técnica e resistência da cabeça aos pés.

Aline é minha sobremesa dos sábados saborosos, sempre na Oca. Com ela eu atravesso paredes, pois sua silhueta fantasmagórica lembra uma assombração gótica, medieval. O contraste com o concretismo de Niemeyer é grande. Tudo bem. Nossas refeições secretas não são mesmo deste mundo duro, concreto. Aline pertence ao além, que também é moderno.

Vitória é meu triunfo dos domingos vitorianos, sempre no jardim de Esculturas. Ela é lenta e cool como uma diva do jazz. Com ela às vezes descanso, às vezes canto, às vezes canso dez vezes mais do que com qualquer outra. Seus movimentos pertencem à ordem das estátuas míticas, guerreiras. Ah, Vitória, você é minha, eu sei, mesmo que em nossas disputas a vitória seja sempre tua.

Durante sete meses tudo correu bem, muito bem. Fui verdadeiramente feliz na companhia de meus sete amores, de minhas sete flores radiantes como as sete cores do arco-íris. Mas então as coisas começaram a desandar.

Simone, minha delicadeza japonesa, estava cansada de namorar nas segundas-feiras e quis mudar o dia. Muuudaaar, eu gemi assustado. Depois fiquei mudo. Depois fiquei puto. É claro que eu disse NÃO, de jeito nenhum, nem pensar. Mas não teve jeito.

Renata, minha alemã manhosa, também quis mudar o dia. Não, não!, eu implorei. Tereza, meu mexilhão mexicano, também quis mudar. Deixa disso, eu sussurrei. Cláudia, minha rainha israelense, também quis. Pra quê, por quê?, eu supliquei. Bruna, minha angorá angolana, também. Nããããããoooooo, eu uivei. Aline, meu rubi russo, também. Mas a rotina é tão boa!, eu esbravejei. Vitória, minha norte-americana desnorteada, também. Ah, dizer o quê? Eu já não tinha argumento nem voz.

Voto vencido, mudamos. Quero dizer, elas mudaram. Ao acaso. A, le, a, to, ri, a, men, te.

A semana virou um esconde-esconde estressante. Um inferno veloz.

Pra encontrar Simone e Renata na mesma tarde, tinha que inventar uma desculpa — paixão, vou comprar pipoca, já volto —, correr pelo parque, inventar outra desculpa — princesa, vou ao banheiro, um minutinho — e voltar a jato. Pingue-pongue besta.

Pra encontrar Tereza, Cláudia e Bruna na mesma manhã eu era obrigado a desaparecer e aparecer feito assistente de mágico. Ora estava aqui ora ali ora acolá, como na canção: “Lá vem o pato, pata aqui pata acolá”. Tá rindo por quê? Isso não é cômico, é trágico.

Teve uma vez que as sete marcaram um encontro comigo para o mesmo dia!

Como estar em sete lugares diferentes, sem levantar suspeita? Tive que usar todo o meu arsenal de truques, tramóias e trambiques. Sorvete, cerveja, jornal, celular esquecido em qualquer lugar. Virei um talentoso mentiroso. Inventava desculpas tão inventivas e verdadeiras que até eu acreditava no que falava.

Complicado foi manter a carinhosa coerência: na hora do beijo certo, chamar a mulher certa pelo nome certo não foi fácil. Precisei fazer anotações. Carregava comigo sete papeizinhos, um de cada cor, cada qual com uma dica labial e lingual. Simone, reservada, gosta de beijar de lado. Renata, submissa, prefere beijar de baixo pra cima. Tereza, mística, gosta de beijar com devoção. Cláudia, protetora, prefere beijar de cima pra baixo. Bruna, dominadora, gosta de comandar o beijo. Aline, indolente, gosta de beijar como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Vitória, inquieta, prefere beijar como se o mundo fosse acabar hoje.

Nesse carrossel de encontrões e desencontros, não perdi o humor nem o amor. Não pedi água nem joguei a toalha. Mas é óbvio que logo logo o cansaço me derrubaria. Tanto vaivém literal e figurado deixaria na lona, desfigurado, até mesmo o Vingador Mascarado.

Eu sabia que cedo ou tarde meus sete amores descobririam tudo. E descobriram. Fiquei sem fala.

Elas descobriram na mesma noite. No mesmo lugar afrodisíaco, à margem do lago do parque, Simone descobriu Renata, Tereza descobriu Cláudia, Bruna descobriu Aline, Vitória descobriu Simone. Cara a cara, descobrimento puxou descobrimento. A farsa ficou sem calça. Um fiasco.

Ah, mas, quando elas descobriram a verdade, eu também descobri a verdade.

E a verdade é que amor nunca é demais.

Cada uma das minhas sete paixões também tem vários namorados. Pra ser mais exato, comigo, sete.

Sete Brancas de Neve com sete marmanjos cada.

Na hora da suprema revelação, anjos e anjas cantaram e dançaram, a lua lúbrica brilhou mais do que o sol, muita música floresceu e encheu o parque de afeto e perfume. Fiz a conta de cabeça. Caramba, se cada uma de minhas mulheres tem sete namorados, quantos somos? Cinqüenta! É amor que não acaba mais.

Na noite em que Simone, Renata, Tereza, Cláudia, Bruna, Aline e Vitória descobriram Simone, Renata, Tereza, Cláudia, Bruna, Aline e Vitória, juntou gente, houve carnaval, ovação, o parque inteiro vibrou.

Nesse momento eu soube: não somos mais humanos, somos divinos. O veneno do amor nos transformou, nos perturbou. Somos deuses. Cinqüenta deuses endiabrados.

Minha delicadeza japonesa, minha alemã manhosa, meu mexilhão mexicano, minha rainha israelense, minha angorá angolana, meu rubi russo e minha norte-americana desnorteada são meus sete pecados capitais, minhas sete notas musicais.

Continuamos juntos até hoje. Cúmplices. Elas e seus sete homens, seus sete céus. Meus sete céus e eu.

Viu, Abigail, meu rolinho da primavera, meu pastelzinho chinês?

Se você quiser ser minha oitava maravilha do mundo, ah, eu vou gostar muito, meu quitutezinho de Macau.

Comece a ler os contos escolhidos deste mês: Martina

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3 comentários em “Pintando o sete”

  1. Seria bom que, ao lado do botãozinho “like” houvesse outro: “unlike”… eu teria clicado nele pra este conto do Nelson de Oliveira, um excelente exemplo de como escrever bem sobre coisa alguma… leitura inútil. Decepciona, porque sei que ele é capaz de muito mais que isso…

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