Martina

Fernando Aires

 Ela observa Marcos entrar em casa a partir da poltrona branca. Aquele homem desajeitado, com o paletó entortado para a direita, cabelos dessarumados, os óculos pendurados pela corrente no pescoço, e a pasta surrada com um fecho aberto, disputando com a fechadura da porta para obter de volta o molho de chaves enquanto balbucia um “oi, amor”, mais para si mesmo que para ela, é seu marido. Observa e lembra-se.

Lembra-se do dia em que conhecera Marcos. Foi na festa de aniversário de um amigo em comum. Martina estava sentada num canto do sofá, e encarava com admiração aquele rapaz por trás dos óculos arredondados, numa conversa inflamada com os outros co-habitantes do sofá, citando “A República”, de Platão, para defender que o processo de instituição democrática fundante da sociedade pós-regime ditatorial era ilusório, conquanto trazia uma falaciosa liberdade de ser regido pelo desejo popular, mas formado pela opinião de ignorantes, o que de fato remontava aos interesses demagógicos da elite populista. Havia uma excentricidade charmosa e uma inteligência transpirante naqueles olhos verdes infantis, que quase pediam para serem cuidados. Enquanto Marcos falava, Martina prendia a respiração. Mas não falou nada. Depois, pediu para o amigo em comum para dar seu telefone para ele.

Lembra-se de quando começaram a namorar. Marcos a chamou para almoçar, e passou o almoço todo falando empolgado sobre as implicações anagógicas da interpretação dos textos sagrados orientais na abordagem antropológica do sagrado, que implicava numa ressignificação empobrecida e relativista da sacramentalidade inviolável judaico-cristã, que por sua vez culminava em uma imoralidade intrínseca da sociedade contemporânea. Depois, Marcos pediu dois cafés, e, com as mãos trêmulas, acendeu um cigarro e o tragou quase todo de uma vez. Então, olhando para a mesa, disse baixinho que vinha pensando, que, talvez, se ela não se importasse, ele tinha algo a dizer, até que foi interrompido com a mão de Martina pegando na sua, e a outra retirando o cigarro daquela mão trepidante e molhada de suor, e o quase sussurro feminino: “Olhe para mim”. Marcos olhou para Martina acuado, enquanto ela disse: “Eu também quero”, e aproximou lentamente seu rosto ao dele. E assim foi, até que os lábios se tocaram em beijo e desespero.

Lembra-se do dia do seu casamento, há seis meses. Martina sentiu saudades de Marcos durante todo o dia, por estar longe dele. Na igreja enorme e dourada, o padre velho e circunspecto falou, entre bocejos dos convidados e durante quase uma hora, sobre a indissocialidade do matrimônio, visão distorcida pela sociedade transviada lá de fora, que subvertia a relação do sexo como necessidade fundamental para a reprodução e não para a luxúria, e salientou o sofrimento resultante necessário do caminho da vida a dois. Ninguém reparou que ele não falara sobre amor – nem mesmo Marcos, que olhara para o velho padre com os olhos abrilhantados durante todo o solilóquio. Durante a festa, Marcos não olhou para Martina, mas sorriu gentilmente para todos os convidados. Depois da festa, foram para o quarto do hotel, e ela não encontrou mais aqueles olhos nervosos e incertos, mas uma frieza fleumática por trás dos óculos redondos. Sem olhar para Martina, Marcos realizou o coito. Depois dormiu, e Martina limpou uma lágrima dos olhos que nunca mais veriam o brilho apaixonado e nervoso dos olhos de Marcos.

Lembra-se da tarde de hoje, quando saiu do trabalho mais cedo e foi encontrar João. João, que sequer fez faculdade, que largou o ensino médio para trabalhar na oficina mecânica do pai, e que, quando o pai morreu, continuou trabalhando na mesma oficina. João, que tem como únicas preocupações o desempenho do Palmeiras no campeonato do momento e a reclamação com a falta de dinheiro, enquanto toma uma dose de pinga com limão no bar do Ceará depois do trabalho. João, que a recebeu naquela tarde com as mãos de mecânico quase limpas pelo trapo de estopa e um “oi, boneca”, seguido de um sorriso sincero, um abraço e um beijo longo. João, que sorria a cada instante que os dedos de Martina tocavam seu corpo nu no quartinho atrás da oficina. João, que é simples. Simples como o próprio amor.

E, então, Martina sorri.

Fernando Aires nasceu em 1981, mora em São Paulo/SP, e é professor universitário. Gosta muito de escrever desde a adolescência, apesar de ser a primeira vez que publica um texto próprio de ficção. Participa do festival NaNoWriMo desde 2009, tendo ajudado a divulgar o projeto no Brasil, e também escreve microcontos no fluxo literário #letras365 no Twitter (@nandoaires). Também mantém um blog sobre espiritualidade, o http://metafisica.posterous.com.

Leia a seguir: Canções e Poemas

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