Estamos nas cavernas, mantendo aceso o fogo da poesia

Escritor, oficinista, organizador de coletâneas, pensador e fascinado pela literatura brasileira contemporânea. Este é o Nelson de Oliveira, tão conhecido por seus livros premiados (o último foi Poeira: demônios e maldições – Língua Geral, 2010, ganhador do Prêmio Casa de las Américas) como pelas coletâneas que servem como uma forma de divulgar novos escritores, mas também de responder ao que chama de críticas injustas à literatura atual.

Nascido na cidade paulista de Guaíra em 1966, ele veio a São Paulo com a intenção de se dedicar a outras artes e foi só numa oficina que acabou decidindo que queria escrever. O resultado fica evidente na quantidade de livros já publicados (é um dos mais prolíficos entre os escritores contemporâneos) e também na de prêmios acumulados.

Na entrevista abaixo, quem responde é o Nelson de Oliveira, mas há uma substancial ajuda de seus dois alter egos: Luiz Bras e Valério Oliveira. Com um tom otimista, mas também cheio de críticas bem direcionadas, Nelson concordou em participar da Outros Ares.

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poemas?

Nelson de Oliveira: Comecei um pouco tarde, aos vinte e dois, vinte e três anos. Até então eu planejava me embrenhar era nas artes plásticas. Vim pra São Paulo justamente pra cursar a faculdade de Artes Plásticas do Mackenzie. Gostava de desenhar. Curtia xilogravura, escultura, fotografia, quadrinhos, pintura a óleo… É claro que também já escrevia umas ficções estranhas, uns minicontos de humor negro. Afinal, como diria Herbert Quain, personagem-escritor de um conto de Borges: “Hoje não há cidadão que não seja um escritor em potência ou em ato”. Tudo mudou em 1989, ao cursar a oficina de criação literária coordenada pelo João Silvério Trevisan. Durante a oficina a literatura me pegou de vez. O que antes eram só exercícios virou um compromisso vitalício. Comecei a trabalhar em meu primeiro livro ainda na oficina: uma coletânea de contos fantásticos intitulada “Fábulas”. Depois passei uns bons anos procurando editor, sem sucesso. O desinteresse das editoras, nesse início de carreira, quase me convenceu de que eu não tinha talento algum. Em 1995, quando já estava prestes a desistir da literatura, pintou o Prêmio Casa de las Américas. Minha estreia, ironicamente, aconteceu em Cuba. Meu primeiro livro não saiu em português, mas em espanhol. Mais recentemente passei do conto para o romance. Nunca escrevi poemas, apesar de, como leitor, a poesia ser meu gênero predileto. Leio e releio principalmente os modernistas: Bandeira, Drummond, Murilo Mendes, João Cabral… Sempre tive a poesia em altíssima conta. Poesia é o dizer que diz o indizível, na definição precisa de Octavio Paz. É a fala do infalível, como afirmava Goethe. Considero a poesia a quintessência da arte literária. Por isso nunca cometi poemas. Por respeito. Por medo. O poeta lá em casa é meu alter ego, Valério Oliveira (risos).

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

Nelson de Oliveira: Tempos atrás eu acreditava que, sim, o conto é um gênero menosprezado no Brasil. Porém, durante a organização da antologia “Geração Zero Zero”, ficou muito claro que isso não é verdade. Anualmente são publicadas centenas de coletâneas de contos no país todo, de estreantes e veteranos. É certo que o gênero predileto dos leitores, e, portanto, dos editores, é mesmo o romance. Mas o conto não fica muito atrás. Menosprezada de verdade é a poesia, apesar de o número de poetas ser muito maior do que o número de contistas ou de romancistas. Isso acontece porque a poesia é um gênero muito subjetivo, que pede um leitor mais sofisticado.

OA: No artigo “Convite ao mainstream”, publicado originalmente no jornal Rascunho e posteriormente no livro “Muitas peles” (Terracota, 2011), o escritor Luiz Bras defende que a saída para a mesmice que paira na literatura brasileira é a ficção científica. A literatura brasileira contemporânea está mesmo num beco sem saída? Será que, num universo de tantos livros publicados todas as semanas durante todos esses anos – sendo que a imensa maioria deles não tem destaque algum na imprensa – não há autores e obras dignos de serem chamados de “diferenciados”, no mínimo? E a ficção científica, como fazê-la influenciar mais a nossa literatura? Afinal, se nem mesmo o futebol, esporte mais praticado e exaltado no país, tem presença forte na literatura nacional, como poderia a ficção científica, que pouco espaço tem no Brasil, renovar a nossa literatura?

Nelson de Oliveira: Luiz Bras é apaixonado por ciência e tecnologia. O que ele e eu notamos é que atualmente está acontecendo tanta coisa inquietante na medicina, na engenharia, na neurologia, nos meios de comunicação, na física e na astrofísica, e em tantos outros ramos do conhecimento… Mas a literatura mainstream não está dando conta de nada disso. De modo geral, a literatura mainstream não está dando conta do mundo contemporâneo. O ser humano está modificando fisicamente sua espécie, de modo radical, com implantes e drogas poderosas, e isso só está aparecendo nos romances e nos contos dos autores de ficção científica. Os autores de fora desse pequeno círculo estão cegos para a realidade atual. O convite feito no artigo citado é sobre isso. Ele pede aos escritores do mainstream que fiquem um pouco mais atentos à pesquisa e à tecnologia de ponta, e reflitam sobre suas consequências benéficas e nefastas. Estava agora há pouco folheando os últimos números da revista Scientific American, e encontrei uma matéria sobre o chip de retina, que devolve a visão aos cegos. Há matérias também sobre neuroimplantes capazes de potencializar os cinco sentidos, a memória e a inteligência. Sobre nano-robôs combatendo células cancerígenas. Tudo isso está acontecendo agora. E os ficcionistas do mainstream estão deixando passar.

OA: Falando em Luiz Bras, por que você criou essa “persona”? Foi para separar o lado ficcionista do articulista?

Nelson de Oliveira: Isso mesmo. Por volta de 2006 eu percebi que minha obra ficcional, como Nelson de Oliveira, tinha fechado um ciclo coerente e organizado. Nada mais poderia ser feito sem o risco da repetição pura e simples. Então decidi encerrar minha atividade ficcional, como Nelson de Oliveira. Ao mesmo tempo resolvi me dedicar com mais afinco à ficção científica, ou seja, decidi retomar um grande amor da adolescência. Meu gênero literário predileto na juventude era justamente esse. Foi aí que nasceu o Luiz Bras, um alter ego, uma persona que acabou dominando a cena. Não escrevi nada ficcional nos últimos quatro ou cinco anos, não como Nelson de Oliveira. Mas planejo continuar dando aulas, fazendo resenhas e organizando coletâneas.

OA: Você inicia o “Ascensão e queda das revistas literárias”, um dos ensaios do livro “Verdades provisórias” (Escrituras, 2003), perguntando “É possível no Brasil de hoje uma revista exclusivamente literária, de alta tiragem, para ser vendida em banca? (…) A proposta editorial dessa revista poderia contemplar apenas a criação literária em detrimento do ensaio e da análise crítica?” Você poderia respondê-las mais uma vez, para quem não leu o ensaio? E mais: por que, mesmo com o crescimento do mercado editorial brasileiro, o Brasil não tem uma revista mensal de divulgação exclusiva de literatura? A única revista desse estilo, no país, a venda nas bancas – salvo engano – é a Conhecimento Prático Literatura, que é bimestral.

Nelson de Oliveira: Tempos atrás havia a revista EntreLivros, que já faleceu. Hoje há a Conhecimento Prático Literatura… Mas esse breve ensaio sobre a “Ascensão e queda das revistas literárias” reclama da falta de revistas literárias de grande tiragem, vendidas em banca, que veiculem menos teoria (reportagens, entrevistas, resenhas e ensaios) e mais prática (contos e poemas). No Brasil existem muitas excelentes revistas veiculando a criação literária: Arte e Letra, Coiote, Celuzlose e outras. Porém essas são revistas de circulação restrita, para poucos. Nas bancas, nada. Meu ensaio sobre o assunto é um pouco saudosista, talvez até romântico. Ele recorda os bons tempos em que havia por aí revistas vendidas em banca, como a Ficção, a Escrita, O Saco e outras, que dedicavam muitas e muitas páginas à criação literária. Por que isso mudou? Simplesmente porque hoje a literatura não dá ibope algum. O Brasil é um país eminentemente audiovisual. Aqui a televisão dá ibope, a música popular dá ibope, enquanto a literatura continua subterrânea. As pessoas quando vão às bancas de jornal querem fofoca, não arte.

OA: Nos últimos anos, houve um crescimento dos cursos de formação de escritores, sejam oficinas, cursos de redação criativa etc., sendo que você é considerado um dos melhores “oficineiros”. E esta é uma tendência geral em outras partes do mundo, seguindo mais ou menos o modelo norte-americano de “Creative Writing”. Já dá para fazer um balanço desse crescimento? Ou seja, as oficinas melhoram a qualidade dos escritores?

Nelson de Oliveira: O livro de estreia dos ficcionistas da Geração Zero Zero foi mais consistente, mais interessante, do que o livro de estreia dos ficcionistas da Geração 90. Os novos ficcionistas estão apresentando livros de estreia muito mais intensos, muito mais bem escritos, do que os da Geração 90. Em 2004, publiquei um ensaio na revista Idiossincrasia, do Portal Literal, intitulado “Vida: modos de brincar”, chamando a atenção pra isso. Se nas últimas décadas não apareceram muitas obras-primas, pelo menos a média da produção melhorou bastante. O nível econômico e cultural do brasileiro melhorou bastante, nas últimas duas décadas, devido a vários fatores. As oficinas de criação literária estão em alta no Brasil. Só aqui em São Paulo há pelo menos meia dúzia em atividade, coordenadas por escritores talentosos como Marcelino Freire, Marne Lúcio Guedes, Edson Cruz, Donizete Galvão e outros. Escrevi em meu livro, “A oficina do escritor”, de 2007: “O efeito colateral mais visível e bem-vindo das oficinas é o aperfeiçoamento do leitor que há em cada oficinando. Só escreve bem quem lê bem. Mesmo os oficinandos que, durante a oficina, percebem que não têm vocação para a criação literária, saem de lá com uma percepção mais crítica e aguçada da arte literária”. Outro ponto importante a ser destacado: as oficinas não prometem transformar ninguém num escritor genial. O máximo que uma oficina de criação pode fazer pelo autor em início de carreira é ajudá-lo a queimar etapas, por meio de exercícios e discussões focadas nos textos produzidos em sala ou em casa. Citando mais uma vez “A oficina do escritor”: “Talento se ensina? É possível ensinar alguém a escrever bem? Acredito que não. Na minha opinião o talento é inato, ou o diletante já nasce com ele ou jamais conseguirá ultrapassar a condição de aprendiz, de amador, de novato. É possível ensinar alguém a não escrever mal? Pode apostar que sim. Como? Por meio de toques, apontamentos, discussões inflamadas. Por meio da troca de impressões e das mais variadas dicas literárias, musicais, teatrais, cinematográficas”.

OA: Por outro lado, isso não vai aumentando o paradoxo brasileiro de mais e melhores escritores com estruturas débeis de edição (poucas editoras se dedicam à literatura nacional e menos ainda a novos escritores) e divulgação (pouquíssimo espaço em jornais e revistas – na verdade, zero espaço para novos escritores)? Como resolver essa equação?

Nelson de Oliveira: Não vejo exatamente um paradoxo na situação brasileira. Eu creio que todos os elos da cadeia produtiva do livro estão crescendo conjuntamente. O número de escritores está aumentando, acompanhando o aumento do número de livrarias e editoras, e, é claro, de leitores; afinal, a população brasileira está crescendo, então é natural que o número de leitores também aumente. Mas enquanto a população cresce exponencialmente, o número de leitores aumenta aritmeticamente: esse é o primeiro problema. O segundo problema é o nosso proverbial “complexo de vira-lata”, cuja divisa é: “tudo o que é feito aqui é de baixa qualidade, bom mesmo é o que vem de fora”. Consequência: o leitor brasileiro não lê o escritor brasileiro. Preconceito irritante. A literatura brasileira sempre me fascinou. Gosto principalmente dos contemporâneos. Leio tudo o que cai no meu colo: ficção, poesia, crônica, ensaio. Realmente não tenho o “complexo de vira-lata”, como dizia meu xará, Nelson Rodrigues. A literatura brasileira é uma das melhores do mundo. Até hoje só não ganhou o Nobel porque o pessoal do Itamaraty não se mexe, não pressiona a Academia Sueca. Não concordo com as críticas negativas à literatura brasileira contemporânea, feita principalmente pelos críticos mais velhos. Minha resposta a essas críticas são justamente as antologias, além de minha própria obra ficcional. Toda nova geração de escritores pede uma nova geração de críticos literários. Estou mais interessado em ouvir o que essa nova geração de críticos tem a dizer.

OA: Como chegamos até aqui sem perguntar sobre as Gerações 90, Zero Zero ou 10, queríamos romper com este silêncio: qual o papel das antologias hoje em dia?

Nelson de Oliveira: Eu sempre encarei as antologias, as minhas e as dos outros organizadores, como um poderoso exercício de crítica literária. As antologias que organizei, da Geração 90 e da Geração Zero Zero, têm essa função: separar o joio do trigo. Por isso são tão combatidas: hoje ninguém quer tomar partido publicamente. Ninguém escreve mais ensaios sobre o cenário contemporâneo, sobre a prosa e a poesia de nossos dias, dando nome aos bois. Se um poeta publicar hoje um ensaio sobre a nova poesia brasileira, apontado os melhores poetas da nova geração, a gritaria será insuportável. É por isso que os escritores não fazem mais balanços geracionais. Dá muita dor de cabeça. Eu penso diferente. Acredito que antologias como as que eu organizei revigoram o debate, como um bom ensaio de crítica literária também faria. Quem também está fazendo um bom trabalho nesse departamento é o ficcionista e ensaísta Roberto de Sousa Causo, com os dois volumes de “Os melhores contos brasileiros de ficção científica” (Devir, 2007 e 2009). Mas precisamos de mais. Na verdade, me espanta que não haja neste exato momento muitos organizadores, muitas antologias, muitas seleções de contistas, poetas e cronistas. A timidez é grande. Isso é a prova de que os escritores de hoje não querem “confusão”.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

Nelson de Oliveira: Não há soluções. O que eu vou dizer agora talvez explique porque hoje, na era eletrônica, é impossível uma revista de contos e poemas de grande tiragem, de circulação nacional. A utopia é um mito inalcançável. A grande literatura existe há pelo menos quatro mil anos e sempre teve poucos leitores. Quando vejo um escritor talentoso reclamar que seus livros não vendem, eu pergunto a ele: se teu objetivo era ganhar dinheiro, por que você escolheu a literatura? Por que não chamou três amigos e montou uma banda de rock? Se vocês estivessem entrevistando o Luiz Bras ou o Valério Oliveira, meu alter ego poeta, garanto que a resposta a essa questão seria muito mais otimista. Luiz e Valério são figuras mais positivas, mais solares. Os dois enxergam o mundo de maneira menos dramática do que eu. Mesmo quando estou de bom humor, eu acredito que vivemos numa distopia. Temos a doce ilusão de estar vivendo na superfície do planeta, mas na verdade vivemos no subsolo, em cavernas, como no mito de Platão. Aliás, essa é uma cena importante do romance “Poeira: demônios e maldições”: o poeta Mallarmé caracterizado como um fauno subterrâneo, estudando antigos tratados de astrologia e alquimia num dos círculos do inferno de Dante. Esse fauno místico e seu grupo mantêm aceso no subsolo, protegido da aridez e da burocracia da superfície, o fogo da poesia. Na superfície, nas cidades, impera o consumismo e a perversão cultural. Ninguém mais vive poeticamente. Noventa por cento da população mundial chafurda na poeira da superfície, como zumbis famintos de açúcar, gordura, sexo, álcool, drogas, etc. Os dez por cento restantes – os bons escritores – vivem nas cavernas, mantendo aceso o fogo da poesia.

Leia a seguir um conto do autor: Pintando o sete

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