A primeira bomba

Marcelo Maluf

A primeira bomba que Kassim fez explodir matou um escorpião que não deveria ter morrido. A bomba era caseira, coisa pequena. Diante do bicho morto pensou se o seu veneno poderia ainda ferir alguém. Não teve a intenção de matá-lo. Acreditava que se não teve a intenção estaria perdoado pelos céus. Um inocente. O escorpião era um inocente. Quis lhe dar um enterro digno. Mas não conhecia seus amigos e parentes. Pensou que, se fosse morto, gostaria de ter o corpo velado por aqueles a quem amava.

Kassim desde os cinco anos de idade manifestou o seu carinho pelos animais e insetos do deserto. Jamais quis feri-los propositadamente. Acontece que agora, aos doze anos de idade, sabia que a guerra fazia seus mortos, e que eles não mereciam pagar com suas vidas, se nem mesmo estavam lutando. Seu avô, seu pai, sua mãe e sua irmãzinha morreram assim, sem lutar. Por isso havia se engajado voluntariamente na luta. Passava os dias arquitetando estratégias para encurralar os inimigos, ficava à espera de um ataque surpresa, queria mais do que vingança, o seu objetivo maior era proteger os sobreviventes. Às vezes, um brinquedo revelado pelo sopro do vento na areia do deserto fazia com que se lembrasse de quando era menino e brincava com seu pai. Bastava uma imagem desfocada ao longe para que a lembrança se apagasse. Posicionava-se em alerta esperando o ataque inimigo. Miragem.

Não havia matado o escorpião de propósito. Ele estava apenas testando o alcance da bomba. O escorpião não tinha que estar ali. Estava no lugar errado, na hora errada. E se os assassinos de sua família também não fossem culpados? E se eles estavam errados naquele lugar, naquela hora? Quem poderia saber? E se a sua luta não fosse legítima? E se estivesse apenas sendo uma criança mimada querendo aquilo que jamais poderia ter de volta? Naquele sem fim desértico, o corpo maltratado de Kassim, ajoelhado, as mãos com um punhado de areia esfregando no rosto, ferindo a pele, mesmo assim não conseguia evitar que as lágrimas escorressem. O ferrão do escorpião à sua frente. Era possível o seu veneno ainda ferir alguém? Desejou a morte, mas lembrou-se do avô que dizia que era indigno do amor divino todo homem que se matava. Kassim tinha motivos para estar vivo e não desistir: a luta para defender os sobreviventes. Mas há dias que o inimigo não vinha, há dias que tinha apenas o deserto como refúgio. Caminhava distâncias que lhe davam sede, e não saia do lugar. Economizava a água do cantil. A comida chegara ao fim. Aprendeu com o pai a caçar gafanhotos e a comê-los; eram amargos, mas pelo menos garantiam a sua sobrevivência. Pensou que pudesse dividir para sempre aquele espaço com os bichos, sabia como se proteger ali, tinha apenas que encontrar de onde extrair água.

Em meio à tempestade de areia, Kassim viu a imagem de uma menina que reconheceu como sendo Karima, sua irmãzinha. O vento lançava a areia de maneira caótica, mas Kassim não fechava os olhos, não queria que ela lhe escapasse. O vento o jogava nas dunas que se recriavam e explodiam. Kassim continuava. Os olhos abertos. A menina se distanciando, misturando-se ao vento e à poeira. A vista embaçou. Caiu. Fraco. Vencido.

Não queria ter matado o escorpião. Não queria ter fugido de casa naquele dia para jogar futebol com os amigos, não queria ter dito não para Karima, quando ela pediu emprestada a bola.  Tentou abrir os olhos, mas doíam muito. Ouviu o som de uma serpente se aproximando. Aos poucos os olhos se abriram, sentia as pálpebras ásperas, não conseguia ver nada. E se os inimigos o atacassem agora? Estava indefeso, sentado, abraçado às próprias pernas, sem enxergar, sem saber aonde mirar e lançar a bomba. Ficou em silêncio para saber se a serpente ainda estava ali. Sentiu apenas o corpo frio da cobra deslizar sobre o seu corpo imóvel, como um obstáculo sem vida no meio do deserto. A serpente seguiu o seu caminho.

Kassim levantou-se, os olhos doíam. Só havia cometido um erro até agora: matou um inocente. O escorpião era um inocente. Era preciso cuidar dos sobreviventes, pronto para quando viessem os inimigos. Ainda carregava duas bombas caseiras e com sorte encontraria água. Os inimigos não teriam chance, agora ele captava os sons à distância, e quando os ouvisse saberia que não estava sendo iludido por miragem. O vento lhe traria notícias de longe. Estava pronto.

Marcelo Maluf é mestre em Artes Visuais. Escreveu, entre outros, a novela infanto-juvenil “Meu pai sabe voar” (FTD, 2009) em parceria com Daniela Pinotti, o e-book “Construção” (2007, Mojobooks) e organizou a antologia de contos “Era uma vez para Sempre” (Editora Terracota, 2009). Tem contos publicados em antologias, revistas e sites literários. Mantém o blog: http://www.marcelomaluf.blogspot.com

Leia a seguir: O sonho de meu pai

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2 comentários em “A primeira bomba”

  1. Que imagem fantástica e humana! Me fez sentir uma mescla de angústia e esperança (que podem ser gêmeas) e também uma lição de profundo respeito pela vida.
    Parabéns e obrigado por mais essa lição, Marcelo!
    Forte abraço e muita inspiração.

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