Uma bola e as crianças

Willian Novaes

Pedro correu em direção à bola. Gustavo parou e observou. No final de tarde a garoa insistia em cair. A bola rolava no campo de terra desde cedo. Aranha era o goleiro intransponível. Cebola, o grande artilheiro. Incansável e imprudente. Girava em cima da bola. Lembrava um bailarino russo. Bolacha, um negro gordo, jogava atrás. Tóia, magro, moreno, rápido e encrenqueiro. Completava o grupo de moleques.

O objetivo: correr atrás da bola e se distrair, rir, curtir, aproveitar a infância. Essa também é a única maneira possível. O calçado é a sola gasta e dura dos pés pequenos, tamanho mais ou menos 35. Todos vivem há mais ou menos dez anos.

No instante que Pedro correu e Gustavo parou, Tóia olhou para Bolacha, que por sua vez também parou. O encontro entre as duas crianças foi rápido e seco. Bolacha nem se mexeu. Mas Pedro bateu com o peito no cotovelo do jovem menino gordo e negro. Cebola apenas pôs as mãos na cabeça. Tóia gritou. Um grito estridente. Gustavo correu. Bolacha virou. Tóia se agachou e chorou. Pedro, desfalecido, tremia. Gustavo o acudiu. Bolacha também. Aranha sumiu. Cebola também. Tóia correu em direção a sua casa.

Tina chegou gritando e viu a terrível cena. Pedro no colo de Gustavo. Bolacha corria para um lado e para o outro. Tóia chorava em casa. Tina tirou o pulso do garoto inerte. Ele ainda batia. As pupilas estavam dilatadas. Bolacha desceu e chamou seu Chico. Tóia não conseguia falar. Gustavo foi parado pelo seu Chico. Eu acho que ele se foi. Como assim. Ele bateu no Bolacha. Mas por quê? Foi do jogo. Vocês só fazem merda. Não foi culpa minha. Chico, pega aqui, não aguento mais. Oh, Tina, você não precisava trazê-lo. Como não? Ele já se foi. Não foi não. Vixe, Maria, vamos correr. Gustavo estava tenso. Bolacha parecia um fantasma. Tóia estava descabelado e mudo. Tina eufórica com o resgate. Chico desceu com Pedro no colo, pediu para o Ademar abrir o carro. Eles se foram.

Seus filhos-da-puta. O que vocês fizeram? Eu não fiz nada, Gustavo e Bolacha responderam. Tóia ficou mudo. Fala, seu moleque atentado. Pode falar, senão o chicote vai estralar para o seu lado. Uuuuuuuu. Fala, sua peste. O que você fez? Uuuuuuuu. Você está doida, Tina. Ele não consegue falar. É verdade. É, sua anta. Vamos pro hospital. Tina desceu as escadas e chamou Arcanjo. Vamos levar o Tóia para o médico. O que ele tem? Não fala. Como assim? Vamos, porra. Lá se foram. Tina, Arcanjo, Tóia, Gustavo e Bolacha. O que esse moleque tem? Vai, me fala. Isso mesmo, sua besta. Não percebeu? Ele não fala. Uuuuuuuu. Uuuuuuuu. Calma, já estamos no hospital.

Vixe, Bolacha, não é o Pedro na maca? É. Nossa, ele está azul. Não, está verde. Pô, ele vai morrer. Cala a boca, pivete. Vai nada. Como você sabe, Tina? Porque eu sei. Uuuuuuuuu. Seu Chico, como ele tá? Ah, menina, não sei. Ele acordou, mas não conseguiu falar. Vixe, tá igual ao Tóia.

Tóia chega próximo. Pedro olha pra ele. Os dois se observam e parecem conversar com os olhos e dizem simultaneamente: Cadê a bola?

Sou bissexto, repórter, roteirista e um pouco doido. Escrevo contos desde os tempos do Jaraguá, com os seus problemas da falta de tudo. Atualmente faço matérias investigativas para o Diário do Grande ABC, mas já passei pelo Diário de São Paulo, Istoé e TV Cultura. Apesar de tudo isso, sou jovem, tenho apenas 31 anos – ou 7, afinal, sou bissexto – e moro em Sampa. Também faço parte do Cine Favela de Heliópolis e em parceria produzo um documentário sobre idosos, chamado “Conselheiros”, nos finais de semana.

Leia a seguir O Castigo.

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2 comentários em “Uma bola e as crianças”

  1. Muito bom, parabéns! Ter morado no Jaraguá deve ter sido uma boa inspiração também rs, morei neste bairro e hoje trabalho no ABC posso acompanhar as matérias deste jornal e as acho excelentes.

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